Quem pensa em mamangavas quase sempre imagina esses insetos peludos zumbindo sobre campos floridos. Só que, no inverno, outra história acontece longe da vista, bem abaixo do chão. Uma pesquisa recente indica que as rainhas de mamangava não apenas conseguem ficar imóveis por semanas no solo: elas também suportam uma inundação prolongada - e, nesse período, continuam obtendo oxigênio diretamente na água.
Uma mangueira de refrigeração estoura, quatro mamangavas “mortas” - e todas continuam vivas
O episódio que revelou isso não começou em uma floresta, e sim em um laboratório da Universidade de Guelph, no Canadá. Em 2020, a bióloga Sabrina Rondeau estava preparando rainhas de mamangava em hibernação para testes. As rainhas permaneciam quietas em pequenos tubos, mantidas frias, como se estivessem em uma toca de inverno artificial.
Durante a noite, um refrigerador vazou e alagou o compartimento. Na manhã seguinte, quatro rainhas já estavam boiando havia mais de doze horas dentro dos recipientes inundados. Para um inseto terrestre, isso normalmente significaria morte certa. Rondeau esperava encontrar corpos sem vida - mas as quatro ainda reagiam.
"O que parecia uma pane no laboratório acabou se mostrando uma pista de uma capacidade que ninguém esperaria de um inseto terrestre: sobreviver por semanas debaixo d’água."
Para entender melhor, a pesquisadora montou uma série de experimentos controlados e expôs 143 rainhas de mamangava à água fria. Elas estavam em torpor de inverno, como ocorre naturalmente quando passam de novembro a março isoladas em pequenas cavidades no solo.
O resultado contraria a intuição: após sete dias submersas continuamente, 81% das rainhas de mamangava ainda estavam vivas. Alguns indivíduos resistiram por oito dias completos embaixo d’água. Mais surpreendente ainda: a taxa de sobrevivência foi maior do que a do grupo de comparação que passou a semana normalmente ao ar.
Como as mamangavas realmente atravessam o inverno
Em condições naturais, no outono as rainhas de mamangava se enterram alguns centímetros em solo fofo. Ali, ficam imóveis durante o inverno, em um torpor profundo induzido pelo frio. O solo funciona como um escudo contra geadas, predadores e oscilações do tempo.
Só que, em invernos mais chuvosos, essa estratégia tem um problema: a terra pode encharcar e as cavidades podem se preencher completamente. Para um animal sem brânquias, isso parece uma sentença de morte. Até pouco tempo atrás, porém, quase ninguém havia testado de forma séria por quanto tempo rainhas de mamangava conseguiriam aguentar uma inundação.
É exatamente nesse ponto que o novo estudo entra. Os dados sugerem que, ao longo da evolução, as mamangavas foram se ajustando - de maneira discreta - a enchentes recorrentes no inverno, combinando física, biologia e economia extrema de energia.
O truque das mamangavas: respirar sem brânquias
Como uma rainha de mamangava respira quando está cercada por água? Para responder a essa pergunta central, a equipe mediu em laboratório tanto o consumo de oxigênio quanto a produção de dióxido de carbono das rainhas submersas.
"Os valores deixam claro: as rainhas de mamangava não estão apenas prendendo a respiração. Elas continuam captando oxigênio na água - só que de modo extremamente econômico."
Três componentes viabilizam o modo de sobrevivência
Os autores descrevem um conjunto de três fatores que torna possível resistir submersa:
- Troca gasosa passiva pela superfície do corpo: a cobertura externa da mamangava, a chamada cutícula, não é totalmente impermeável ao ar. O oxigênio dissolvido na água consegue atravessar lentamente até os tecidos.
- Uma “camada de brânquia física” formada pelos pelos: os pelos finos do corpo retêm uma película de ar quando a mamangava entra na água. Nessa interface, o oxigênio difunde da água para a camada de ar e, dali, para as aberturas respiratórias (os espiráculos).
- Economia radical de energia no inverno: durante o torpor, a rainha reduz drasticamente o metabolismo. No experimento, a produção de dióxido de carbono caiu de uma média de 14,4 para apenas 2,35 microlitros por hora e por grama de peso corporal quando as rainhas estavam submersas. Com isso, a necessidade de oxigênio diminui para cerca de um sexto.
Sem essa forte desaceleração, o oxigênio que chega passivamente pela cutícula e pela película de ar nunca seria suficiente. As mamangavas sufocariam em poucas horas. É justamente esse modo extremo de economia que transforma processos mínimos de difusão em uma estratégia respiratória viável.
O que acontece dentro do corpo da rainha de mamangava
No inverno, as rainhas de mamangava colocam vários sistemas do corpo no mínimo: batimentos cardíacos, atividade nervosa e digestão passam a operar em ritmo reduzido. Elas praticamente não se movem. No subsolo, a temperatura muitas vezes fica apenas um pouco acima do ponto de congelamento, o que ajuda a poupar energia.
Quando estão submersas, esse quadro se intensifica. A mamangava quase não queima reservas e se sustenta com quantidades ínfimas de oxigênio. Ao mesmo tempo, o metabolismo lento é suficiente para manter células e órgãos funcionando. É como um “stand-by” biológico.
O que a mudança climática pode provocar nas mamangavas
Eventos de chuva intensa estão ficando mais frequentes na Europa e na América do Norte. Os solos demoram mais a congelar, permanecem úmidos por mais tempo e são inundados com maior regularidade. Para mamangavas, isso pode virar um fator decisivo - a depender de quão robusto é esse “truque” subaquático no longo prazo.
"A capacidade de sobreviver por vários dias sob a água parece, à primeira vista, um presente da evolução - e pode salvar mamangavas justamente quando a mudança climática torna mais instáveis seus refúgios de inverno."
Ainda assim, esse mecanismo não vem sem custos. No inverno, rainhas de mamangava vivem de reservas de gordura: elas não se alimentam, e dependem por meses do que acumularam no fim do verão. Qualquer estresse extra, como inundações repetidas, consome energia.
Agora, a equipe de Rondeau pretende avaliar quanto períodos prolongados de submersão afetam essas reservas. A questão é direta: na primavera, restará energia suficiente para fundar um ninho, botar ovos e criar as primeiras operárias?
Perguntas em aberto: até quando isso funciona?
Em laboratório, algumas rainhas de mamangava resistiram por oito dias submersas. Se esse é o limite máximo, ninguém sabe. Os testes foram interrompidos nesse ponto, porque os pesquisadores não quiseram empurrar os animais deliberadamente até a fronteira.
Também permanece a dúvida sobre como as mamangavas lidam com várias fases de cheia em um mesmo inverno. Na natureza, o solo pode congelar, descongelar e voltar a encharcar repetidas vezes. Se as rainhas conseguem suportar múltiplos ciclos de submersão e reexposição ao ar ainda precisa ser testado.
| Pergunta | Conhecimento atual |
|---|---|
| Duração máxima de sobrevivência submersa | Pelo menos 8 dias em laboratório; limite superior desconhecido |
| Várias fases de submersão por inverno | Ainda não investigado de forma sistemática |
| Consequências para a capacidade de formar novas colônias | Riscos presumidos por consumo mais rápido das reservas de gordura |
| Ocorrência em outras espécies de insetos | Suspeita, mas ainda pouco estudada |
Por que essa pesquisa vai muito além das mamangavas
Muitos insetos polinizadores passam o inverno de modo parecido com as mamangavas: enterrados, muitas vezes sozinhos, em pequenas cavidades no solo. Isso inclui algumas abelhas solitárias, certas vespas e besouros que vivem no chão. Se rainhas de mamangava conseguem tolerar por muito tempo solo encharcado, é possível que outros insetos tenham capacidades semelhantes.
Para a agricultura e a conservação, isso é crucial. Mamangavas estão entre os polinizadores mais importantes de plantas nativas e culturas agrícolas. Em algumas regiões, elas fazem uma parcela grande do trabalho que, em outras, recai sobre as abelhas-melíferas. Sobreviver ao inverno influencia quantas colônias começam na primavera e o quão bem lavouras e pomares serão polinizados depois.
O que as pessoas podem fazer na prática
Mesmo com um truque subaquático impressionante, mamangavas continuam vulneráveis. Quem quiser deixar jardim ou varanda mais amigáveis para mamangavas pode ajudar a evitar que as rainhas cheguem a situações extremas:
- Solo com estrutura variada: áreas sem impermeabilização e que não sejam reviradas o tempo todo oferecem melhores abrigos de inverno.
- Cantinhos com folhas secas e madeira morta: esses espaços protegem contra chuvas fortes e geadas e criam micro-habitats.
- Flores da primavera ao outono: assim, futuras rainhas conseguem formar reservas de gordura a tempo.
- Evitar pesticidas: toxinas enfraquecem os animais e reduzem suas chances de atravessar o inverno.
O estudo, no fim das contas, reforça o quanto insetos podem ser adaptáveis - e quantos segredos ainda existem até mesmo em espécies que parecem bem conhecidas. As rainhas de mamangava peludas, que no verão zumbem sobre as flores, no inverno levam uma vida escondida como verdadeiras sobreviventes sob a terra. Descobrir que, se necessário, elas conseguem “respirar na água” por uma semana inteira muda de forma significativa a maneira como enxergamos esses animais.
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