Pular para o conteúdo

CT revela água escondida no meteorito marciano NWA 7034 (Black Beauty)

Cientista em laboratório analisa fragmento de rocha com imagens de crateras e amostras ao redor.

Novas ferramentas costumam abrir caminho para novas descobertas científicas. Por isso, quando uma tecnologia não destrutiva passa a estar ao alcance de mais laboratórios, é quase certo que cientistas planetários vão querer colocá-la à prova em meteoritos.

Um novo artigo, disponibilizado em pré-publicação no arXiv, liderado por Estrid Naver, da Universidade Técnica da Dinamarca, e os seus coautores, descreve a aplicação de duas dessas ferramentas (relativamente) recentes a um dos meteoritos mais famosos do mundo: o NWA 7034, também chamado de Black Beauty.

Por que a NWA 7034 (Black Beauty) é tão especial

Parte da notoriedade da Black Beauty vem da sua origem. Trata-se de um fragmento de Marte que chegou à Terra, muito provavelmente lançado por um impacto gigantesco no Planeta Vermelho. O meteorito reúne material com cerca de 4,48 mil milhões de anos, o que o coloca entre as amostras marcianas mais antigas já identificadas no Sistema Solar. E, além do valor científico, ele é visualmente marcante - daí o apelido.

O problema é que muitas análises anteriores exigiram que os investigadores removessemdesnecessariamente pedaços dessa “obra-prima” para os estudar. Depois de separados, esses fragmentos acabavam triturados ou dissolvidos para libertar e medir os componentes presentes na rocha.

Hoje, existe uma alternativa mais cuidadosa: a tomografia computadorizada (CT).

CT de raios X e CT de nêutrons: duas formas de ver sem destruir

Existem dois tipos de equipamentos de CT relevantes neste contexto. O mais comum - inclusive em clínicas e consultórios - é a CT de raios X. Esse método é especialmente eficiente para localizar materiais pesados e densos, como ferro e titânio.

Há ainda uma abordagem menos difundida, a CT de nêutrons, que usa nêutrons em vez de raios X para atravessar o objeto estudado. Os resultados podem variar bastante, mas em geral essa técnica tende a atravessar melhor materiais mais densos e, sobretudo, tem uma vantagem crucial: é muito boa para identificar hidrogénio - um dos componentes essenciais da água.

O que a equipa encontrou: clastos e água na Black Beauty

No estudo, os autores combinaram as duas técnicas para examinar a Black Beauty sem destruí-la e verificar o que ela “guardava” internamente. Embora o processo seja não destrutivo, há uma ressalva: eles analisaram apenas uma pequena amostra do meteorito, que já tinha sido polida anteriormente.

Ao observar esse fragmento, os investigadores encontraram "clastos".

Em termos geológicos, um clasto é simplesmente um pequeno fragmento de rocha incorporado numa rocha maior. E, neste caso, a presença de clastos não é novidade: há décadas os cientistas sabem que a Black Beauty é composta por eles, o que se encaixa com o cenário da sua formação - um grande impacto em Marte que teria aglutinado e fundido materiais rochosos.

A novidade, porém, esteve no tipo específico de clasto detectado pelas tomografias.

Os autores identificaram agregados ricos em hidrogénio descritos como "oxic-hidróxido de ferro rico em hidrogénio", abreviado como H-Fe-ox. Esses agrupamentos com muito hidrogénio corresponderam a cerca de 0,4% do volume da amostra de Black Beauty analisada - um pedaço aproximadamente do tamanho de uma unha.

À primeira vista, 0,4% pode soar irrelevante. No entanto, ao fazer as contas químicas considerando o interior do meteorito, o estudo indica que esses pequenos fragmentos podem concentrar até cerca de 11% do conteúdo total de água presente na amostra.

Ligações com Marte: Jezero, Perseverance e a água antiga

Para contextualizar, estima-se que a própria Black Beauty contenha cerca de 6.000 partes por milhão (ppm) de água - um valor extremamente elevado para um material vindo de um planeta que, hoje, apresenta tão pouca água à superfície.

Mais importante ainda: os resultados encaixam-se com a identificação de amostras associadas à presença de água na cratera Jezero, observadas pelo Perseverance.

Mesmo a Black Beauty tendo origem numa região de Marte completamente diferente daquela de onde vieram as amostras analisadas pelo veículo robótico, a ligação entre os materiais reforça a ideia de que houve água disseminada - provavelmente líquida - na superfície marciana há milhares de milhões de anos.

O que isto significaria para o Mars Sample Return

Por si só, este meteorito já funciona como uma espécie de “missão de retorno de amostras” condensada numa única rocha. Ainda assim, os cientistas que o estudaram esperavam aplicar as mesmas técnicas de CT não destrutiva em futuras amostras recolhidas numa missão Mars Sample Return.

Uma vantagem prática destacada é que as tomografias conseguem “ver” através do invólucro de titânio no qual essas amostras seriam armazenadas.

No entanto, com o recente cancelamento desse programa, pode demorar muito até que amostras planetárias recolhidas diretamente sejam submetidas, na Terra, a ferramentas tão poderosas quanto as disponíveis nos laboratórios atuais.

Ainda assim, há uma missão chinesa de retorno de amostras planeada, o que pode significar que a espera não seja tão longa quanto se teme. Até lá, aplicar o mesmo tipo de teste não destrutivo a outros meteoritos marcianos parece um uso inteligente da experiência e do equipamento já existentes. Com sorte, veremos muitos outros estudos desse tipo no futuro.

Este artigo foi publicado originalmente pela Universe Today. Leia o artigo original.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário